Neurite óptica
A neurite óptica é uma inflamação do nervo óptico, estrutura responsável por transmitir os impulsos elétricos gerados na retina até o cérebro, permitindo a formação da imagem visual. O nervo óptico possui uma camada protetora...

Sinônimos
Neurite retrobulbar
Definição
A neurite óptica é uma inflamação do nervo óptico, estrutura responsável por transmitir os impulsos elétricos gerados na retina até o cérebro, permitindo a formação da imagem visual. O nervo óptico possui uma camada protetora chamada bainha de mielina, que acelera a condução dos estímulos nervosos. Diversas etiologias podem estar associadas à neurite óptica, como causas autoimunes, infecções, doenças granulomatosas, síndromes paraneoplásicas e desmielinização. A principal causa é a esclerose múltipla. É importante a identificação da causa para determinação do tratamento.
Apresentação
A neurite óptica se apresenta de forma aguda, unilateral, associada à piora da acuidade visual e dor retrobulbar que frequentemente piora com a movimentação ocular. A apresentação bilateral é mais comum em crianças e em adultos soropositivos para MOG-IgG ou Anti-Aquaporina 4 (AQP4) IgG
Sintomas
- Perda visual: com diferentes graus de gravidade, dependendo da causa, pode ser súbita ou gradual, parcial ou total. Em alguns casos há cegueira temporária, reversível em semanas.
- Dor ocular: geralmente associada à movimentação dos olhos.
- Alteração da visão de cores: as cores parecem mais apagadas ou acinzentadas, com redução do contraste.
- Alteração do campo visual: presença de áreas de visão embaçada ou pontos cegos no campo visual.
- Defeito pupilar aferente
- Alteração da percepção de contraste
- Fenômeno de Uhthoff: piora temporária da visão com aumento da temperatura corporal, como durante exercícios ou banhos quentes
- Alteração fundoscópica: o exame fundoscópico pode ser normal ou podemos encontrar edema e hemorragias no disco óptico e ainda sinais de inflamação ocular.
Prevalência
A evolução depende da causa subjacente. Pode haver recuperação espontânea em semanas, mas podem ocorrer recidivas, especialmente quando associada à esclerose múltipla.
A prevalência e incidência variam conforme a população estudada. Ainda não há dados epidemiológicos específicos para o Brasil. Nos Estados Unidos, estudos mostram uma prevalência estimada de 115 por 100.000 habitantes e incidência anual de 5 por 100.000.
Cerca de 2/3 dos casos ocorrem em mulheres jovens entre 20 e 35 anos. A predominância étnica também varia: nas formas associadas à esclerose múltipla, predomina em pacientes brancos, enquanto a neuromielite óptica é mais comum em pacientes não brancos e asiáticos.
Diagnóstico
O diagnóstico é feito pelo oftalmologista, com base nos sintomas clínicos e em exames complementares. A avaliação inclui:
- Exame de reflexo pupilar (para detectar defeito pupilar aferente).
- Teste de acuidade visual e campo visual.
- Avaliação neurológica, pois muitas vezes há correlação com doenças do sistema nervoso central.
- Ressonância magnética de encéfalo e órbitas, que permite visualizar o nervo óptico e identificar lesões desmielinizantes.
- Análise do líquido cefalorraquidiano (LCR)
- Exame de sangue: avaliação de anticorpos antinucleares e investigação de doenças infecciosas
- Campo Visual
- Potencial visual evocado
- Tomografia de coerência óptica (OCT)
Eletrofisiologia Visual
O exame de Potencial Visual Evocado por padrões reversos (PVE), que avalia o funcionamento da via máculo-occipital, deve ser realizado para identificar lesões da via visual e acompanhar a evolução da neurite óptica.
Por afetar a mielina do nervo óptico, a neurite óptica interfere na condução dos impulsos elétricos. Assim, no PVE de padrão reverso, é comum observar atraso na latência do componente P100 e, em alguns casos, redução da amplitude.
Nas neurites ópticas desmielinizantes, observa-se prolongamento da latência da onda P100 com preservação da amplitude e da morfologia, indicando apenas desmielinização. Já a diminuição significativa da amplitude sugere lesão axonal associada, refletindo dano estrutural mais profundo além da perda de mielina.
Além dessas alterações, podem ser observadas modificações na morfologia da resposta, como alargamento da onda ou presença de onda bífida — quando dois picos aparecem em vez do formato único esperado da P100.
Mesmo após a melhora clínica da neurite óptica, o PVE por padrões pode permanecer alterado, apresentando atraso na resposta, evidenciando a persistência de dano desmielinizante residual.
Entre os diagnósticos diferenciais destacamos neuropatia óptica isquêmica anterior (NOIA), papiledema (edema do nervo causado por aumento da pressão intracraniana) e hipertensão arterial maligna (pode causar edema de disco bilateral).
Tratamento
O tratamento da neurite óptica visa reduzir a inflamação e acelerar a recuperação visual.
As principais abordagens incluem:
- Corticosteroides intravenosos, como metilprednisolona, para reduzir a inflamação aguda.
- Hormônio adrenocorticotrópico (ACTH) intramuscular ou subcutâneo
- Imunossupressores e imunoglobulina intravenosa, em casos autoimunes ou refratários.
- Plasmaférese, indicada em episódios graves ou resistentes ao tratamento inicial.
- Antibióticos apropriados se diagnosticada doença infecciosa.
- Acompanhamento neurológico e oftalmológico contínuo para prevenção de recidivas e monitoramento de doenças associadas.
Em alguns casos, pode ocorrer recuperação espontânea da visão, sem necessidade de tratamento agressivo. Entretanto, é essencial investigar a causa subjacente e manter seguimento especializado.
Leitura científica sugerida
Marmoy, O. R.; Viswanathan, S. Clinical electrophysiology of the optic nerve and retinal ganglion cells. Eye (London), v. 35, n. 9, p. 2386-2405, set. 2021. DOI: 10.1038/s41433-021-01614-x. Erratum in: Eye (London), v. 37, n. 6, p. 1290, abr. 2023. DOI: 10.1038/s41433-021-01798-2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34117382/. Acesso em: 2 jan. 2026.
Bennett, J. L. Optic Neuritis. Continuum (Minneap Minn), v. 25, n. 5, p. 1236-1264, out. 2019. DOI: 10.1212/CON.0000000000000768. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31584536/. Acesso em: 2 jan. 2026.















